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A soja suja

Oscar Noronha Filho


No momento mesmo em que o Brasil enfrenta o poderio das nações hegemônicas, na reunião da O.M.C., em Cancun, tentando atravessar as muralhas dos governos dos psíses ricos que — através de indecorosos incentivos aos seus agricultores e de vergonhosas taxações dos nossos produtos — impede o livre comércio de nossa produção, eis que o solerte adversário consegue introduzir uma cunha mortal em nosso dispositivo de defesa: a medida provisória, assinada sob protesto, pelo Vice-Presidente da República, permitindo o plantio da soja transgênica, em todo o território brasileiro.

O PMN sente-se no dever de se pronunciar a respeito de tão momentosa questão, pelos motivos seguintes:
- ainda que o receio dos oponentes ao plantio e comercialização da soja transgênica não tenha nenhum fundamento comprovado;
- ainda que entidades científicas declarem que, até hoje, não foi detectado nenhum malefício à saúde humana, pelo uso desse manipulado produto;
- ainda que mais de uma dezena de países já estejam produzindo alimentos transgênicos;
- ainda que a proibição do plantio venha a prejudicar os agricultores do Rio Grande do Sul;
- ainda que o impedimento pretendido possa resultar em desemprego para muitos trabalhadores brasileiros; e
- ainda assim a permissão para “transgenizar”o nosso principal produto de exportação poderá trazer, como conseqüência, um incalculável prejuízo para a economia do país, levando possivelmente o Brasil a cair do 1° lugar neste setor exportador e, certamente, frear ou cortar o nosso recente e promissor avanço, rumo ao primeiro mundo.

Por todas estas razões, o PARTIDO DA MOBILIZAÇÃO NACIONAL – o PMN, A Legenda da Soberania – não pode omitir-se nem demitir-se.

E vem a público para declarar que, além das considerações acima, não viu alegação alguma de nenhum dos abalizados debatedores do problema, partidários da tese oponente, fazer referência aos únicos argumentos de peso, na dirimência da questão, a saber:

1°> que as sementes de soja transgênica estão sujeitas do direito de patente de uma multinacional capitalista, a MONSANTO.

2°> que as sementes transgênicas são estéreis e não se reproduzem como tais e, portanto, uma vez colhida a safra, o agricultor não poderá guardar as sobras, para novo plantio, ficando obrigado a comprar novas sementes. DE QUEM? POR QUANTO?

3°> que o cultivo de uma variedade com tantas inconveniências só se justificaria no caso de uma extrema urgência ou incontornável emergências, resultantes de uma penúria de estoque, coisa que não acontece, eis que entidades americanas chegaram a oferecer polpudas quantias em dólares aos sogicultores brasileiros, para que eles deixassem de plantar soja! Não será isto um inequívoco reconhecimento de que a soja orgânica é um imbatível concorrente da soja transgênica?

Da época da colonização aos dias da globalização, pouca coisa mudou no eixo do mundo: agora, temos o Norte globalizador e o Sul globalizado.

E a escravidão néocolonialista, além de iníqua, é extremamente perversa: seus escravos devem pagar suas cadeias, comprar seus grilhões e trançar, com as próprias mãos, a corda em que serão enforcados.

Os piratas dos novos mares já aprestam seus navios para, saindo dos ancoradouros das docas do Trópico de Câncer, atingir – na rota de fuga dos meridianos ocidentais – as pacíficas populações das praias de Capricórnio.

Aviso aos bélicos navegantes: permaneçam nos seus paralelos.

Há poucos dias, o seu capitão-mor, aparatado para a briga, a bordo da nave mãe, afiançou ao mundo que sua frota era invencível.

Se não fosse o ser ele amnésico de História, teria lembrança do final que teve, outrora, outra “invencível armada”. Os bucaneiros do Terceiro Milênio poderiam mirar-se no espelho do passado e ter, ao menos a coragem de ter vergonha de não envergonhar-se.


Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2003
OSCAR NORONHA FILHO
Presidente Nacional do PMN

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