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Breves considerações sobre a guerra

Oscar Noronha Filho
Presidente Nacional do PMN

Há uma frase que, vez por outra, vem à tona de minha memória e que não me lembro de onde a li ou de onde a ouvi, nem de quando a ouvi ou li: "a guerra, sempre a tereis entre vós ".

Ela tem jeito de citação religiosa, mas soa muito mais como uma maldição. procurei-a na bíblia e lá não a encontrei. de onde será ?

Acreditar na perenidade da guerra é crer que o homem será eternamente estúpido. mas a evolução existe.

Na bíblia, precisamente no novo testamento, na epístola de paulo aos coríntios (9:7), há uma pergunta intrigante: "quem jamais vai à guerra à sua própria custa ? "

Esta pergunta responde e mata a outra. Ela define que a guerra é algo que é imposto ao homem. por quem ? eis a questão.

A verdade é que só os exercitos de voluntários se compõem de soldados que amam a guerra. E talvez nem estes, uma vez que as organizações militares desse tipo são compostas por homens que são pagos para guerrear, o que vale dizer que são mercenários. são profissionais da guerra, cujo voluntarismo é algo duvidoso.

Quem tem prazer em matar, seja de que modo for, foge à normalidade humana: é doente ou criminoso. ou, talvez, esteja fora do eixo da evolução, vivendo, ainda, nos tempos bárbaros. A guerra, como expressão de força bruta que é, vigorou nas comunidades primitivas como fator de equilíbrio, típico de organização em fase involutiva, quando era, não só tolerada como necessária.

Hoje, quando a evolução percorreu o seu caminho, ao longo do tempo e do espaço, a guerra não oferece nenhum atrativo, a não ser a pessoas involuidas, atreladas ao passado.

Qual a feição apresentada pela guerra em nossos dias? os estudiosos do fenômeno guerreiro através da história, concordam num ponto: o desenvolvimento tecnológico tornou o ato de matar infinitamente mais eficiente. A bomba atômica e a bomba de hidrogênio constituem a coroação desse "progresso ".

E é aqui que começam a surgir as divergências no que tange à apreciação desse "progresso ".

Depois da segunda guerra mundial, o escritor e ensaista boris ulanis publicou um livro, recheiado de estatísticas, fazendo um balanço dos estragos da guerra através dos tempos.

Nesse livro, ("guerras e populações") fica demonstrado que, só no último conflito, foram mortas mais de cinquenta milhões de pessoas. sem contar as perdas materiais. Se estes números assombram pela sua magnitude, devem horrorizar, como tradução da tragédia humana, que eles representam.

Entretanto, ainda há analistas, de mentalidade cavernícola, que tentam apresentar o fenômeno guerreiro como manifestação natural do instinto de agressão, que é proprio do homem.

O proprio freud se manifesta dessa maneira

Pergunta-se: esse instinto ainda sobrevive?

Talvez. mas está em fase de perecimento. Lentamente, mas inflexivelmente, a evolução executa o seu serviço

Pietro Ubaldi mostra isso muito claramente, quando diz, em a grande síntese, que "hoje a humanidade vive uma fase de transição, em que já se compreende a utilidade da paz, mas não se sabe ainda vencer a necessidade da guerra."(cap. xc) Monteiro Lobato, num de seus livros infantis, explica o desaparecimento dos gigantescos animais pré-históricos, dizendo que eles cresceram tanto, se fortaleceram tanto, se "encoscoraram" tanto, cobrindo-se de armas de defesa cada vez maiores, que acabaram desabando sob o seu peso.

Com a guerra está acontecendo o mesmo. O citado UBALDI acrescenta ainda: "O crescente poderio destrutivo destruirá a guerra, porque a progressiva sensibilidade humana e a sua maiis profunda consciência a encararão cada vez mais, com medo e horror"(op.cit).

Talvez possamos acrescentar a estas considerações um dado mais sensível à mentalidade materialista de nossos dias. O de que o peso que está inviabilizando a guerra não é só moral, mas também econômico: os armamentos consomem orçamentos gigantescos.

Só o bombardeio de tres semanas sobre a Iuguslávia, feito pela OTAN, consumiu milhões de dólares e a reconstrução da área destruida custará mais de um bilhão. E só foi um bombardeio "humanitário".

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